terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Carrossel

Sou eu,
mais nada.

O vento que sopras
continua sem balanço
enquanto eu me lanço
do abismo.
Espreito
em bicos dos pés
com a certeza crescente
de que quem sente
não sou eu.

A minha casa não é esta.
Que chão é este
que me enche de feridas?,
quando sempre soubeste
da minha predilecção
por pés descalços.
Quantas vidas me restam?

Há quanto tempo
conto o tempo
que me falta para sair?
As raízes que inventamos
esbatem-se
na imensidão do Universo
em constante mutação
por pesadelos
com outros tectos e soalhos
mais amaciados do que os teus.

Estas paredes
apodrecem ao meu toque.

E enquanto eu me arrasto na lama
tu continuas preso ao carrossel
onde nos encontramos
de tempos a tempos.
Mas não consigo amar-te sempre,
ser feliz cansa-me a alma.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Há uma casa

Há uma casa
onde nunca vivi,
sem portas nem quartos
com escadas em caracol.
Cortaram-lhe as asas
e quebraram janelas
forçaram jaulas
e muros fantasma
ergueram por dentro
no centro do nada,

Havia uma casa
a caminho do Sol
onde os andaram eram palavras
e as camas revolução.
Havia uma casa
sem coisas feias
com pensamentos
espalhados pelo chão.

Há uma casa
onde nunca vivi
mas diz quem viveu
que o sonho
que também é meu
não pode ser emparedado
e que quanto mais cimento o cobre
menos amordaçado
será o novo amanhecer.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Se eu soubesse

Se eu soubesse
como era ser assim,
antes de eu ser tu
e outro se transformar em mim.
Ai se eu soubesse, meu amor
não me tinha atirado do abismo
sem agarrar a tua mão.
Se eu soubesse
das flores de perdição
que criava no meu próprio umbigo
inconsciente do perigo
e alimentado apenas
por esse sabor amargo
a avareza venenosa.
Se ao menos adivinhasse
que depois desses teus braços
os laços seriam tão distantes...
Mas há quanto parei eu
de contar amantes
e coisas malditas?
Se são as mentiras que digo
as que me fazem amar de verdade
e se a realidade
dá apenas azo a enganos?
Quantas juras de amor fiz eu,
quantos foram únicos e primeiros
tão intensos e verdadeiros,
quantos escrevi sem sentir
e senti sem saber?
E o pior,
o pior é que não sei nem o que disse.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Há sonhos assim

Se o meu corpo fosse um instrumento
e o tocasses tão furiosamente
como arranhas as cordas,
nessa melodia transcendente
que me apaixona a cada nota...

Não sei o porquê
das tuas mãos entre o linho e o algodão
nem das tuas linhas
a desfazerem os meus prantos.
Tu que me lembras toda a gente
e nunca foste de ninguém.

E assim sopro-te as penas do ombro
com a esperança vã
de te ver na minha cama
na noite fria que se avizinha,
entre sonhos e paisagens
perdidas nos nossos olhos gélidos,
mortas por bolas santas
num despertar qualquer.

Há sonhos assim,
em que me esqueço que existes
e não sinto a profundidade do teu corpo
perdido no meu
em alegorias fantasmagóricas
fantasiadas pela tua ausência
na mente de outro alguém.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ilusões

O teu corpo esguio
corrompe as minhas entranhas
e sem grandes artimanhas
quebra o meu em pedaços
encontrados calmamente
nos suores do teu regaço
consolado com a chegada
e rompido pela partida
que um outro dia
será desfeita pelo cansaço
de esgrimir com dentes de aço
moinhos de vento
ao relento de miragens.
Mas a tua pele,
comprometida ou não,
será sempre minha
e a única prisão que verás
são as entrelinhas dos poemas
que tal como as minhas pernas
se entrelaçam à tua alma
na tranquilidade inocente
de uma violência nossa apenas.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A dança das putas tristes

O cheiro a queimado
dos pavios
no palácio das velas de cristal...
Olhai para elas tão belas,
que putas tão bem vestidas,
bailando ao som
de tristes violinistas.

Os seus seios descobertos
alerta a qualquer movimento mais audaz.
Que caminhos tão incertos
toma esta gente
quando abunda a aguardente
e a droga no bar.

Não tema senhora!
Sou burguês
e o meu órgão está apenas
à mercê das suas lindas mãos!
Desvie os olhos da faca
e oiça os calabouços
das jóias e do ópio!

Sim, meu bom homem,
mas já não é sangue nem sémen
o que brota destes olhos,
agora só molhos de rosas
e a mais pura das águas
escorrem por esta face.
Veja, veja senhor
o mal que o amor me fez!

Mas dança puta,
dança por enquanto não te cansas
o balanço do teu corpo
é o avanço de outras coisas.
E se poisas no chão
hás-de ver a minha mão
esbofetear-te com lembranças.

E o baile não pára nunca,
entre o fumo dos cigarros
e os sorrisos rasgados
das senhoras.
Que encanto,
que deleite!
Saber que as podemos ter no leito
numa noite como esta.
Porque não?
Se o coração já não diz nada
e não passamos de bestas embriagadas
no hospício da solidão...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Fotografia

Um dia
eu vou ouvir na minha
fotografia
o mel atroz
da tua voz
por entre os sons das minhas,
inexistentes
dormentes
por outro sexo
que não o teu.

E o céu pesado
inacabado
nos meus sonhos e melancolias
rompido por gestos
discretos
e cortantes
como um limão
em vidas partidas
será nosso
outro dia.

O cheiro
lavado
do teu quarto
e do teu corpo
nunca usado
por mais ninguém
será
mais uma vez
encontrado
na nudeza
das minhas mãos
suaves
e suadas
lambendo
a tua fotografia.