terça-feira, 19 de junho de 2012

Acordei com vontade de vomitar

Acordei com vontade de vomitar. Lisboa está espectacularmente feia hoje, há lixo por todo o lado e o cheiro nauseabundo, quase adocicado, é acentuado pelo calor que se faz sentir. Cá dentro também cheira mal, não sei se dos bancos se das pessoas.
O condutor do autocarro insiste em estalar os dedos a um ritmo irritante; entra um pica com um anel gordo no dedo mindinho, depois outros três. Um maluco qualquer grita "Há quatro chulos no autocarro!". Entretanto a mulher que está agarrada ao varão ao lado do meu banco não pára de mastigar pastilha elástica, tem o cabelo pintado de loiro quase palha, com raízes pretas e brancas, um top verde alface e calças de ganga descaídas, os 50 anos de pele saem por todo o lado; consigo ouvir o colar e descolar do cuspo na boca dela. Entra um aleijado que nem é capaz de pôr-se de pé, anda agachado, com as mãos a agarrar os pés, obrigando-os a mexer.
Lá fora, prédios descascados, uns em construção, outros em ruínas. É engraçado como as coisas funcionam. E eu que me sentei, como sempre, no banco da frente, para ver as coisas e as pessoas entrarem...e para depois deixar de as ver. Mas depois penso...ainda bem que há coisas tão feias. Sobre as bonitas já está tudo escrito.

sábado, 9 de junho de 2012

Sem Título

Subitamente as copas das árvores e as nuvens pareceram-me montanhas cobertas de neve. Eu, tal como tu, nunca existi, apenas em sonhos. Lembras-te de passearmos de mão dada no meio do nada, naquele espaço em branco entre a praça deserta e a guerra de lama na outra ponta da casa, de pintarmos os nossos corpos e de vermos a tinta a derreter lentamente no sol do meio-dia, do sal nos nossos lábios cheios de feridas abertas, de tão secos que estavam? Eu também não.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Já não me importo com gritos

Já não me importo com gritos
nem com lençóis sujos,
os meus cabelos não são lavados
vai já para dez dias
e os meus pés encardidos
parecem não incomodar
os pingos de sangue seco no chão.
Não te oiço
nem te cheiro
nem te sinto
e as noites que são só minhas
e das minhas masturbações
serão apenas ecos de fantasias
até ao dia em que eu me cansar
da falta de odores corporais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Um dia sonhei que morria

Um dia sonhei que morria

e para que voasse livremente
até aos confins do nada
como eu sempre desejei
tive que fazer o pino.

As minhas mãos
penetraram docemente o alcatrão
ainda molhado
mas como nunca fui
nem serei
uma grande equilibrista,
em vez da alma pelos pés
saiu-me vómito da garganta

e nem sequer me afoguei.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Enquanto

Sou aranha equilibrista,
presa entre sonhos de odalisca
e desejos mais banais.
E enquanto andas perdido e mudo,
quando a culpa é só minha,
corro alegremente pelos campos
desfolhando outros arbustos
e descascando avelãs.
Mas nada terá sido em vão.
Se não és nem serás nunca
meu corrimão
outros certamente acolherão
com toda a pompa e circunstância
a abençoada graça
da minha triste presença,
por mais breve que seja
nos degraus de alguém.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Vou-me assim

Vou-me assim
de forma estranha
como a absurdez das pedras da calçada
que se questionam sobre o porquê
do irromper lento e vagaroso
das árvores na cidade.
Não sou daqui.
Canso-me
e desfaço-me em cansaço.
Estou já comatosa
mas de tão cansada
prefiro partir amanhã.