terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tempo

A beleza grotesca do teu estômago nu
em completa distenção
e o cheiro insuportável a borracha queimada
que me perfurou as entranhas
perturba-me o sono.
A pureza enjoativa do teu sorriso primaveril
espelhado em cada canto
dessa falsa nudez adolescente,
tão rude como bela
qual a inocência reminiscente
nas profundezas do que fui,
agora aborto estéril de olhos arregalados.

E o que em mim se faz curto
e que em ti se prolonga
em nós não é mais do que nada
ou sequer a estrada corrida por outros,
nem o espaço que galga
de cá para lá incessantemente.
Nem o teu corpo ou o meu.
Nem mesmo o nosso
que se perde no tempo
e se encontra algures
sem saber como nem porquê.

sábado, 13 de outubro de 2012

Casas

O som que as garrafas partidas
fazem nos meus pés descalços
assemelha-se vagamente
aos meus lábios inchados
que incessantemente
jorram sangue na calçada.
E nas escadas
os degraus continuam tortos
e encavalitados.

E é essa imensidão
que nos transtorna e engole
que inflige chagas profundas
que um dia nos deixarão
cair no esquecimento
para nos juntarmos
aos outros nós.

Impulsos tão fortes
sem a repulsa que gostaria de ter
na minha alma de luto
de animal ou mulher
ou nada absoluto
como havia prometido
e aprendido com ele.

Mas se fico e aceito
que o vidro que pisei
ou as varas secas de betão,
eram no fundo verdes campos
onde crianças brincavam
não tenho outra solução
senão a de partir para outra casa
sem reminiscências do passado
nem saudades do futuro.